Aos dez anos de idade ainda se sofre de uma certa falta de gosto. Ou excesso, dependendo do ponto de vista. Nessa fase da vida começa-se, aos poucos, a abandonar aquelas manias de criança que o mundo adulto não entende - como usar fantasia de Cinderela para ir ao médico, vestir meia-calça no calor e sandália no frio, misturar doce-de-leite com bolo de chocolate ou, ainda, alternar uma colherada de sopa com outra de danoninho, durante o jantar. Aos dez anos o peso da vida de gente grande ainda não pesou nos ombros e as escolhas excêntricas mais parecem um grito final de liberdade, antes de começar a enterrar as manias infantis em nome das escolhas responsáveis.
Até os dez anos, é permitido ser o homem aranha que entra na fila do banco, de mãos dadas com a mãe, ou a fada Cininho que escolhe chocolates na gôndola do supermercado. Vestir fantasias é uma das melhores coisas da infância. E quando não são fantasias, são roupas combinadas ao sabor das vontades que se sobrepõem. E dá-lhe calça por cima de saia, regata com short e galocha e outras misturas que fazem a alegria da garotada, mas que deixam as mães à beira do desespero. Em vão. Não há censura que freie a miscelânea de estampas e a explosão de cores.
No quesito gastronomia, a confusão se dá de forma parecida: tudo combina com tudo, desde que seja exageradamente açucarado, pegajoso - e colorido, muito colorido. No almoço, que venha a macarronada com arroz e feijão. O pirulito preferido vai ser o que tiver a cor mais estanha e o sabor que mais faça salivar. O gosto de anilina salva a vida do tédio. A quantidade industrial de açúcar soa como um presságio de que a vida nunca mais será tão doce.
Escrito por Vanessa Barone às 15h01
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